Alergia e urticária entenda mais

O mundo à nossa volta nos é totalmente familiar, como se sempre tivesse existido dessa forma. Celulares tocando, TV ligada, computadores plugados. Modernidade por todos os lados. Mas, assim como aconteceu com a comunicação entre os seres humanos, as doenças também evoluíram e se modificaram; curiosamente, a alergia faz parte deste panteão de ítens contemporâneos.


É verdade que existem relatos de alergia desde o início da civilização. Mais de 3.000 anos antes de Cristo, nos primórdios da civilização egípcia, quando ainda nem existiam as famosas pirâmides, uma picada de vespa provocou uma reação alérgica que levou o Faraó Menés à morte. A descrição em sua tumba foi a primeira de que temos notícia. A reação anafilática causada por vespas e abelhas é um quadro alérgico que pode desencadear sufocamento e colapso. Mesmo na atualidade, provoca momentos de terror nas pessoas alérgicas. No entanto, no passado, era um fato extraordinariamente raro.

Além de reações a picadas de insetos, o contato com animais tornaria os humanos cada vez mais sensíveis a partículas protéicas que não existiam cotidianamente na época em que passamos a andar sobre dois pés, na savana africana, há milhões de anos atrás. Cães e gatos passaram a conviver conosco, desencadeando uma avalanche de sintomas alérgicos. Mas não apenas foram os pequenos animais domésticos. Grandes animais, domesticados milhares de anos atrás, também trouxeram a possibilidade de novas reações indesejadas. Os cavalos, por exemplo, originários do Oriente e trazidos para a Europa por volta do ano 600 d.C., emprestariam sua imagem aos heróis da Idade Média. Afinal, quem tinha um cavalo também tinha atitudes de um “cavalheiro”. Mas cavalos já existiam na Roma Antiga, onde protagonizaram as corridas em circos ou eram utilizados para marchar em cima de cristãos. O filho do imperador Cláudio, que recebeu o sobrenome de Britannicus após o sucesso do pai na invasão da ilha, no ano de 43 d.C., não teve sorte: desenvolveu alergia ao pêlo do cavalo, o que o impedia de brilhar na arena, onde seu recente irmão, Nero – adotado por Cláudio após novo casamento – fez fama e construiu o caminho para ser o novo imperador. Logo após subir ao poder, Nero deu um último golpe na má sorte do garoto Britannicus, envenenando-o. Alguns anos antes, o filósofo Lucrécio já previra que algumas substâncias inofensivas poderiam ser verdadeiros venenos para algumas pessoas: tão prejudiciais quanto o ciúme real.

Mas, ao que parece, as alergias cutâneas têm descrições ainda mais antigas. Manuais de Medicina Chinesa relatam casos de vermelhidão pelo corpo, com coceira (o que hoje chamaríamos de urticária), descritos no período da antiga dinastia Zhou, centenas de anos antes do nascimento de Cristo, época que veria o surgimento de grandes pensadores, como Confúcio e Lao-Tsé. A explicação para o fenômeno alérgico envolveria um suposto desequilíbrio da dualidade Yin-Yang. Na mitologia oriental, yin e yang foram os princípios formadores do universo e da vida. Yin é passivo, feminino, frio. Yang é ativo, masculino, quente. Não deixa de ser uma forma particular de ver o mundo.

Na Europa, outro evento envolvendo urticária também esteve ligado à mesquinharia humana em sua busca desenfreada pelo poder: Ricardo III, rei inglês que tinha urticária a morangos, usou este pretexto em sua coroação, em 1480, para acusar um dos lordes de conspiração. Bastou a supeita do jovem rei para que o pretenso insurgente fosse devidamente decapitado. Ao contrário do outro Ricardo, o corajoso e amado Coração de Leão, Ricardo III foi retratado por Shakespeare em toda sua debilidade; no entanto, apesar da beleza fonética, a frase que o monarca teria dito, “meu reino por um cavalo”, não passou de pura poesia.

Naturalmente, cidadãos comuns provavelmente sempre tiveram quadros alérgicos que não fizeram parte da história oficial. De todo modo, até a era moderna, eram episódios pouco freqüentes. Uma das características da existência da alergia é a produção exagerada de um tipo de anticorpo, da marca E, também chamado de IgE (ou imunoglobulina E). Acredita-se que este ítem do nosso sistema imunológico não exista à toa. A IgE é produzida em grandes quantidades e atuam de forma positiva quando temos uma infestação por vermes intestinais (a verminose). Alguns são microscópicos, mas outros são imensos (“lombrigas” e tênias) e têm convivido conosco ao longo dos milênios. Alguns estudos mostram que populações com elevado índice de verminose apresentam menos quadros de alergia. Por outro lado, países que controlaram os níveis de infestações na população, situam-se no topo do ranking das nações mais alérgicas. É uma escolha que parece não ter volta, já que as infecções por helmitos (ou verminose) causam desnutrição e atraso no desenvolvimento das crianças.

As nações mais ricas também têm mais partículas indutoras à alergia (os alérgenos) no interior das casas, índices altos de poluição ambiental, modificação nos hábitos alimentares, menos infecções por água e alimentos contaminados e diferenças no número e características das bactérias que habitam o intestino de seus habitantes. Todos estes fatores parecem ter alguma importância na explosão de casos de alergia, que aconteceu no século XX e corroboram a chamada Hipótese da Higiene, uma tentativa de explicar a suposta “ociosidade” do nosso sistema imunológico, que derivaria então para a auto-agressão.

Como sempre, nem tudo é tão simples. Estudos diversos tiveram resultados opostos no que diz respeito à “verminose x alergia” e alguns países com menor índice de desenvolvimento humano, como o Brasil, possuem números alarmantes de asmáticos e riníticos, mostrando que a recente emergência da “epidemia mundial de alergia” tem aspectos complexos que ainda não conhecemos.

Esse cenário ainda não eclodira, quando, em 1906, um pediatra austríaco chamado Clemens von Pirquet criou o termo alergia que, segundo suas palavras, representaria “qualquer forma de reatividade biológica alterada”. Houve muita resistência na comunidade científica em relação à validade de invenção de novas palavras como essa, até porque as urgências sociais e médicas da época, como a mortalidade infantil, a ausência de vacinas e antibióticos, eram outras (assim como, infelizmente, continuam sendo nos países pobres). Adicionalmente, era um pensamento difícil de conceber: como nosso sistema imunológico, responsável por nossas defesas, poderia ser acusado de causar dano justamente em nosso próprio corpo? Este é um conceito que, ainda hoje, o médico tem dificuldade de transmitir ao paciente. Neste contexto, a supressão da auto-agressão alérgica, mesmo que auxiliada com o uso de remédios, possibilitaria uma vida mais saudável.

Mais ou menos na mesma época, em plena Belle Époque, período de grande deslumbramento europeu em relação às suas próprias proezas industriais e culturais, surgiu o termo anafilaxia, que significa reação potencialmente grave, podendo ocorrer simultaneamente em diversas partes do corpo. Medicações e algumas substâncias protéicas fariam parte da lista de alérgenos implicados. Diríamos que, agora, na vida do além túmulo, o Faraó Menés passou a ter, finalmente, uma explicação científica plausível para o evento fatídico que o vitimou.

Uns poucos anos se passaram e, antes de iniciar a Primeira Guerra Mundial, foram publicados artigos médicos relatando sucesso com injeções regulares da própria substância que causava a reação alérgica. Nascia a “vacina alérgica” ou, no vocabulário médico atual, a imunoterapia. Uma idéia tão inovadora e interessante que, passados quase cem anos, permanece com o prícipio básico inalterado. Apenas o material utilizado é que se tornou mais purificado (como ácaros, partículas de cão/gato ou de mosquitos/formigas).

Na década de 30, é sintetizado o primeiro anti-histamínico (ou “antialérgico”, como é chamado popularmente) e, uma década após, surgem os corticosteróides (ou corticóides, conhecidos como “cortisonas”), completando uma dupla de remédios que, em suas versões mais modernas e sofisticadas, não passam um único dia sem serem receitadas pelos especialistas de hoje.

Mas nem tudo são flores. O modo de vida ocidental, que originou diferenças tão grandes com países menos industrializados, pode ter resultado em um assustador aumento da incidência de doenças alérgicas a partir da Segunda Guerra Mundial. Quando se analisa especificamente a asma (doença também chamada de “bronquite”, em grande parte de fundo alérgico) os dados mantiveram escalada constante até a chegada do milênio. Nos EUA, por exemplo, nas últimas duas décadas do século XX, os casos aumentaram em 118% e as internações 30%. A cada 250 mortes no mundo, uma passou a ser por asma. No Brasil, em um grande estudo populacional, observou-se que por volta de 15% de adolescentes tiveram sintomas de asma no último ano e 30% têm sido acometidos por rinite alérgica, continuamente.

Mas, nos últimos anos, tivemos um dado pelo menos consolador: o número de casos de alergia estabilizou-se em países que frequentam o ponto alto da estatísticas. Uma possível análise considera que se chegou ao limite da genética. Hoje, diríamos que todos aqueles com alguma predisposição ao aparecimento de alergias têm encontrado, no contexto contemporâneo, um solo fértil para a eclosão da asma, rinite e doenças de pele como a dermatite atópica (ou eczema alérgico). Um fato comum, no atendimento médico especializado, é constatar que a presença de níveis mínimos de alergia em uma criança, por exemplo, faz com que ela tenha de conviver com sintomas respiratórios prolongados durante os períodos em que respira o ar de uma cidade poluída. Basta viajar um pouco para sentir uma nítida melhora.

Outro fato notável, e também consolador, é o surgimento, nos últimos anos, de drogas de última geração bastante eficazes no controle de sintomas, com potencial muito pequeno de produzir efeitos colaterais. Menés receberia uma dose inicial de adrenalina, seguida de um antialérgico (se possível, não sedante – que não induz ao sono – por isso as doses poderiam ser duplicadas ou triplicadas conforme a necessidade) e de um corticóide adequado, em um ambiente hospitalar, onde o monitoramento do oxigênio no sangue e da capacidade de manter a pressão arterial e as vias respiratórias funcionando adequadamente aumentariam enormemente suas chances de aproveitar muitos anos a mais aqui na Terra.

Matéria do site: tratandoalergia.com.br

Dr. Raul Emrich Melo